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ENTREVISTA: Kult of Krameria (Portugal)

Posted by LUIS ALVES On 10:00 AM


KULT OF KRAMERIA
Se o nome "Kult of Krameria" lhe diz algo então você sabe da importância da expressão artística envolvida. Se por outro lado o nome do projeto não lhe é familiar, sugiro que busque, estude e eduque seus ouvidos e conheça o som deste projeto de origem Portuguesa que marcou definitivamente a Cena da Música Eletrônica desde os anos 90 em Portugal e no Mundo. Falar de Kult of Krameria é para muitos fazer uma viagem ao passado onde sensações inacreditáveis eram vividas nas pistas de dança, onde emoções e sentimentos diversos se manifestavam a cada minuto e, onde o público saía no final de cada festa com a sensação de que uma história havia sido contada com elementos que remetiam às bases e raízes da música eletrônica mais ricas. O projeto Kult of Krameria surge na cidade de Lisboa em 1993 envolvido em um crescente movimento underground que se fazia sentir em Portugal. O projeto pode ser classificado como "live performance" onde os elementos criados em estúdio se misturam com elementos improvisados na cabine, resultando em uma experiência única para o público. Depois de duas décadas nas pistas, vários temas se tornaram destaque como: Love & Happiness, Voodoo Drums, The Profecy, Esperança e mais recentemente Break my Bone e Whatchout. Os trabalhos dos Kult of Krameria foram editados por editoras como a Twisted America, Nervous Records, Stereo Productions, Younan Music, Kult Records, Beatfreak e Fatal Music. O seu som viaja entre os elementos étnicos com batidas fortes mescladas com referências urbanas e underground. O "Drama" nas suas músicas é também algo constante e que garante a inclusão dos seus temas nas playlists dos maiores nomes do Djing mundial. Defensores ativos de música criada com coração e alma, o som dos Kult of Krameria cativa várias gerações. Confira a seguir a entrevista exclusiva dos Kult of Krameria para o Cultura de Dj.




ENTREVISTA
CDJ - Os Kult of Krameria surgem no ano de 1993 quando Portugal e toda a Europa passava por uma fase extremamente vibrante no movimento "underground". Quais foram as vossas motivações iniciais ao criar este projeto?
KK - Na altura, éramos apenas 3 amigos que queriam fazer música. Vivia-se em Portugal uma fase muito positiva relativamente à música eletrônica e, em Lisboa especialmente, existia uma vibe muito grande que depois se espalhou pelo país. Tudo era novo e diferente, havia uma contra cultura que se tornara um movimento dominante e isso era espetacular. Não só a música, mas as artes visuais, a dança, tudo se conjugava e foi aí que nós nascemos. Queríamos fazer parte disso, queríamos fazer discos, tocar ao vivo, estar nas grandes festas, ser reconhecidos pelo nosso trabalho e acabamos por o conseguir, felizmente.

CDJ - "Love & Happiness" e "Voodoo Drums" foram dois dos temas mais míticos do projeto e que se espalharam rapidamente pelas pistas um pouco por todo o mundo. Esse destaque do projeto foi algo esperado por vocês na altura?
KK - Tivemos mais tarde, em 2005, também o tema o "Esperança" em que colaboramos com o Danny Tenaglia e o Onehundredpercent, que saiu na Stereo e tiveram muito boa visibilidade. Love & Happiness e Voodoo Drums, eram temas que tinham a ver com essa procura constante da novidade, e foram apresentados á pista de dança numa altura boa para nós. Love & Happiness, tinha uma produção complicada na altura, penso mesmo que foi o tema mais complicado que produzimos naquela época, havia um bass line sempre presente, mas por cima dele caiam várias "paterns" rítmicas com uma intensidade crescente e sequências melódicas que se completavam. Tudo terminava no êxtase de um momento, com uma mensagem. Era bom ver as pessoas a darem as mãos na pista e a levantarem-nas no ar. O Voodoo Drums, era e é ainda hoje uma track de "Pure Madness", abrasiva, demolidora, envolvente. Dava ao Dj o poder de incendiar a pista em qualquer momento e reflete um pouco a nossa maneira de trabalhar ainda hoje. Não queremos fazer temas que os outros já fizeram, nem andar por caminhos já explorados, sempre foi assim desde o inicio e continua. Existe neste projeto, essa procura de fugir dos lugares onde os outros estão. Se esperávamos por esse destaque na altura? Um produtor nunca espera um hit, ele acontece por um efeito "bola de neve", que é difícil prever na música eletrônica, mesmo hoje. De uma coisa temos a certeza, o trabalho na altura foi feito de forma crescente e, para que o projeto se tornasse conhecido rapidamente, foram muitas e longas noites de trabalho, nos primeiros anos. Fazíamos música todas as noites até de manhã, foi por isso que construímos uma cadência de edições muito rápida e isso levou ao reconhecimento.



CDJ - Sem dúvida que a década de 90 foi mítica não apenas para o House como para vocês enquanto projeto de música eletrônica. O que mudou nas pistas em termos global dessa época para os dias de hoje?
KK - O que mudou foi o público e o acesso à informação. Saímos de uma situação de procura constante pela novidade e por novas experiências, para uma situação em que tudo está acessível e à distancia de um click, juntamente com a mudança geracional que entretanto aconteceu. Aparentemente, os novos "party goers" sentem-se mais à vontade a cantar refrões pop e a dançar músicas que já conhecem da rádio ou de que viram o vídeo no youtube ou na MTV. É uma questão geracional, não interessa tentar compreender porque o fazem ou porque preferem tirar fotografias a sorrir e a mostrar como são felizes, em vez de dançar e usufruir da experiência de ter um dj a criar um set para eles, único, à medida, para os fazer dançar e divertirem-se. Interessa apenas saber que as massas se moveram para outros quadrantes e, tentar arranjar forma de as ir buscar novamente ou arranjar novos públicos para as substituir e manter o groove.

CDJ - Como avaliam e classificam a música eletrônica que se produz na atualidade?
KK - Mais diversificada, menos criativa, mais evoluída tecnicamente, acessível e relativamente fácil de produzir.

CDJ - Muitos dizem que os temas dos Kult of Krameria são "impossíveis" de enquadrar num estilo definido dentro da House Music. Onde vocês enquadrariam o som que produzem em termos de estilo musical?
KK - Nós também não conseguimos, nem queremos. Uma das bases vivas do projeto é fazer sempre coisas novas e diferentes. Dou-te um exemplo: tivemos algum sucesso com o Voodoo Drums, mas não vamos passar a vida a fazer músicas iguais a essa, há sempre uma necessidade de procurar coisas novas. Hoje em dia, penso que o estilo que praticamos, está dentro da grande família de estilos a que chamam de Tech House. Também gostamos de algum Techno e de House e Deep House, mas temos feito muitas coisas diferentes. É essa uma das mais valias do projeto, estar à vontade em muitos estilos para os poder trabalhar livremente, isso cria um portfólio diversificado e vai buscar pessoas a muitos lados para a base de seguidores.


CDJ - Sem dúvida que um dos destaques dos vossos temas é a forte presença de percussão e elementos dramáticos e algo futuristas. Qual o tipo de influências que procuram quando estão a produzir?
KK - Sim, os Drums com Drama, sempre foi uma das principais características do nosso som. A pista tem que ser um espaço de experiência e não de tirar fotos. Por isso, o drama é muito importante na produção, as pessoas têm que ter sensações, que as levem para lá da sua zona de conforto, só assim faz sentido. Dançar na discoteca ou na rave, no momento em que as luzes vão abaixo e em que se ouvem os gritos, em que sai o drama, o medo, os arrepios, a insanidade. Depois disso, vem a explosão e solta-se a energia do público. Aí os Drums são imbatíveis para os fazer mexer e soltarem-se. Fazer levantar os braços hoje é fácil e socialmente aceitável, quase todos os dj's baseiam nisso as suas atuações, mas, nós pretendemos que as pessoas tenham outras sensações, para lá da libertação. No final da noite, o prazer da viagem e a cultura, deve ser o que prevalece nas suas cabeças antes do merecido sono.

CDJ - Quando se apresentam ao vivo como Dj's qual o setup que usam na cabine?
KK - Hoje em dia já não levamos aquelas máquinas todas para o palco quando vamos tocar. Usamos 2 ou 3 setups diferentes, baseados na plataforma Traktor da Native Instruments. O primeiro e mais antigo, usava 2 computadores com o Traktor e que se ia ligando externamente na mistura, que é feita por 2 controladores, o Kontrol S4 e o Maschine, mapeado para controlar o Traktor também. Hoje em dia, usamos mais um setup em que apenas funciona um computador e os 2 decks e os 2 remix decks estão acessíveis aos 2 controladores através de um mapping muito complexo e que demorou algumas semanas a fazer, mas permite live sessions de drums, congas, vozes etc. Temos um 3º setup em que ligamos o Traktor e o Ableton Live, mas que ainda estamos a desenvolver o mapping e a forma de trabalho, ou seja, ele já faz o básico que é o que a maior parte do pessoal que usa faz, e mais algumas coisas que entretanto inventamos, mas ainda não faz exatamente aquilo que nós queremos, e como o queremos.

CDJ - Qual a vossa opinião sobre a plataforma Digital, os Controlares Midi e o Software de Djing?
KK - É uma evolução natural, penso que é uma discussão que não faz sentido. Se existem novas ferramentas de trabalho são para usar, quem não as usa fica para trás. Hoje, grande parte da discussão nas redes sociais, gira á volta do uso do Sync e de que no tempo do vinil é que era bom. O software é evoluído e excelente e os controladores permitem fazer muito mais coisas do que passar a noite a acertar batidas. Trabalha-se mais rápido e se tiveres uma boa técnica de "layering", souberes fazer o trabalho de casa, consegues compor em tempo real e passar um bom bocado com os teus fãs. A experiência é muito melhor para o ouvinte se for bem feita claro. Ok, existe aquela nostalgia de tocar com os Technics, e eu tenho 2 em casa que adoro e uso de vez em quando, mas isso é típico da nossa geração que é muito nostálgica, a nova geração não quer saber disso e quem está na pista agora é a nova geração.



CDJ - Hoje em dia existe uma crescente corrente de profissionais que busca incessantemente ressuscitar o bom som que era escutado na década de 90 e inícios de 2000 e que mantinha as tribos urbanas na pista não apenas pelo elemento musical mas também pela qualidade e ambiente criado pelo Dj. Vocês acreditam que é possível voltar atrás e resgatar essa vibe?
KK - Nós acreditamos e é por isso que ainda cá andamos a trabalhar para isso, mas está difícil, porque existe muita coisa, muita informação, muita diversidade e o público dispersa-se, fragmenta-se, desaparece de um dia para o outro. A mudança tem que ser na nossa opinião de fundo, voltar a criar os clubes com a boa vibe, onde o Dj residente seja responsável, se esforçe para trazer esse som ao espaço e não encare a sua profissão como um tempo de aprendizagem para dar o salto para se tornar um dj freelancer famoso ou usar o espaço como moeda de troca para os seus gig's no exterior. Depois, tem que haver uma transversalidade nos grupos de interesse, as diversas tribos fecharam-se e trabalham só para si, não admitem estranhos, mesmo que o que eles tragam seja diferente do que têm. Os sistemas geram poucos recursos e quanto menos pessoas existirem no negócio melhor. Por último, tem que haver investimento e aí a coisa complica-se, as editoras têm que alimentar essa vibe, e nesses 4 ou 5 clubes por cidade, é preciso criar um circuito que as pessoas frequentem e garantam que por eles lá estarem, mais virão para dançar e propagar a onda e os empresários têm que querer participar nisso.

CDJ - Como vocês avaliam no presente a tarefa enquanto agente cultural do Dj nos clubes? Os profissionais ainda conseguem elementos para cultivar e educar o público?
KK - O grande problema foi que a música passou a ser acessória, em vez de ser a razão pela qual as pessoas frequentam o clube. Ao fazer-se isso contrataram-se Dj's mais baratos ou promoveram-se os aprendizes, que passam músicas "para a casa" ou seja para os bares funcionarem e se manterem até mais tarde. Já não existe a preocupação em educar o público. Essa função, salvo raras excepções aparece nos Dj's Freelancers, que se dedicam a essa atividade e onde quase já nem ganham dinheiro. Divulgam a música e a cultura, têm uma base fiel de seguidores, continuam a alimentar a vibe. Aqui e ali, aparecem bons projetos, clubes com uma boa programação que cativam tribos, fazem boas festas e criam uma "hype" para a festa seguinte, mas são projetos limitados porque se fecham nos seus ciclos, não renovam o seu DNA musical. Tocam sempre os mesmos Dj's residentes, de vez em quando mandam vir um estrangeiro ou 2 para chamar público, mas na verdade num ano se vais a 8 ou 10 festas dessas, vais ver os residentes 8 ou 10 vezes e isso se calhar não é assim tão interessante nem tão inovador. Acresce que os Dj's são normalmente os donos ou sócios das promotoras e por isso tendem a salvaguardar o seu "income" mensal.

CDJ - Quais os vossos projetos atuais?
KK - Os nossos projetos passam por continuar a produzir e tocar para o público sempre que possível. Tivemos até à primavera mais fechados no estúdio, mas isso deu frutos no verão com muitas edições em labels conhecidas mundialmente, e agora estamos a terminar uma série de temas novos e algumas remixes para essas mesmas labels. Sempre que podemos ajudamos editoras mais pequenas e das quais gostamos do som, com edições ou remixes.




CDJ - O que podemos esperar dos Kult of Krameria no futuro?
KK - Estamos cá para lutar pelo futuro da música eletrônica e no essencial para continuar a alimentar a base de fãs dos KK, que querem continuar a ouvir a música como nós a fazemos e a ver-nos tocar ao vivo. Não vale a pena fazer hoje planos para grandes coisas, há 20 anos que existimos e nunca planeamos grande coisa, fomos andando e saboreando cada momento, mas olhando para trás vemos que foi um percurso interessante, existe um caminho e uma história e isso é o mais importante. 

CDJ - Qual o conselho que podem deixar aos nossos leitores que estão iniciando suas carreiras agora para poderem vencer como Dj's?
KK - O conselho normal que toda a gente dá: não copiar ninguém, criar o seu próprio estilo, insistir, insistir, treinar muito, lutar pelo lugar onde se espera estar amanhã e começar rapidamente a produzir. O Dj ou produtor terá mais valor se conseguir fazer coisas que os outros ainda não fazem, ser diferente, manter-se original e acima de tudo nunca defraudar os seus seguidores, pois sem eles, o Dj/produtor não existe. Acho que devemos imaginar este mundo como uma parede com várias janelas pequenas, a abrir e a fechar constantemente. De vez em quando abre-se uma e toda a gente quer entrar por ela rapidamente, mas ela pode não ser a janela indicada. É na percepção da janela certa que pode estar a chave do vosso sucesso. Implica estar atento ao meio, tentar perceber como funciona o negócio da musica eletrônica e depois criar e projetar o vosso nome, a vossa marca nesse espaço. Pelo meio vai aparecer muita gente que não tem o talento para criar música ou meter pessoas a dançar, que se vai querer aproveitar do vosso trabalho, nessa altura temos que saber saltar fora.

O Cultura de Dj agradece aos Kult of Krameria pela disponibilidade, sinceridade nas suas resposta e pelo apoio ao nosso projeto. Desejamos que o projeto continue criando e re-inventando a música eletrônica e desejamos a eles todo o sucesso do Mundo.

KULT OF KRAMERIA

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